
Naiá Tupinambá foi a única mulher indígena do Brasil a representar o país na 70ª Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW70), que aconteceu de 9 a 19 de março, em Nova Iorque. Em entrevista, a estudante de ciências sociais do povo Tupinambá de Olivença falou sobre a sub-representação nesses espaços e as dificuldades de acesso à justiça para as mulheres de seu povo.
“Eu fui a única mulher indígena da delegação brasileira entre mais de 243 delegadas não indígenas. Isso representa cerca de 0,41% da composição oficial. A gente consegue perceber a sub-representação nesses espaços e muitas vezes nos sentimos sozinhas e que a nossa luta ainda sequer é visibilizada”, desabafou.
Com o tema central do evento sendo o acesso à justiça, Naiá Tupinambá destacou as barreiras enfrentadas pelas mulheres indígenas para denunciar violências. Entre os obstáculos estão a falta de delegacias próximas, a barreira linguística para quem não fala português e o racismo estrutural.
“Quando uma mulher indígena que não fala português chega a uma delegacia, como ela fará para denunciar? E o racismo ao qual ela está sujeita a sofrer nesses espaços? Muitas vezes, não permitem sequer que ela passe da calçada para entrar”, questionou.
Justiça e racismo estrutural
Para Naiá, existe um “projeto de negação de direitos” que impede a efetivação da justiça para os povos originários.
“Na maioria das vezes, o sistema jurídico só atua para criminalizar as lideranças e promover violência jurídica de gênero contra mulheres e lideranças indígenas. Quando se fala em garantir nossos direitos, não se leva em conta a distância geográfica, as questões étnicas, as especificidades e a pluralidade dos nossos povos”, criticou.
Encaminhamentos
Após sua participação, Naiá entregou um relatório à Ministra Márcia Lopez, solicitando o fortalecimento da participação de mulheres indígenas na próxima edição do evento, a CSW71. Ela recomendou a adoção de uma política explícita de inserção, com um quórum mínimo de representação.
“Eu passei por muitas violências simbólicas nesse espaço, justamente por ter sido a única e também por falar sobre uma agenda para a qual o Brasil não havia se preparado para defender e dialogar”, relatou. Ela também apontou a ausência de um painel específico sobre mulheres indígenas dentro da programação oficial da ONU.
Apesar de ouvir que a pauta deveria ser liderada pelo Ministério dos Povos Indígenas, Naiá vê isso como uma “blindagem” para a não priorização do tema por outros órgãos e prometeu continuar a luta, seguindo o legado de sua mãe, a ativista e liderança indígena do povo Tupinambá de Olivença, Bekoy Tupinambá, no combate à violência de gênero e à violação dos direitos de meninas e mulheres indígenas.